O índice que todo banco pede

Quando uma empresa brasileira solicita renovação de linha de crédito, o gerente do banco pede o índice de liquidez corrente. A fórmula é simples: ativo circulante dividido por passivo circulante. Acima de 1,0, a empresa cobre suas obrigações de curto prazo com recursos de curto prazo. Acima de 1,5, há folga. Acima de 2,0, alguns analistas começam a perguntar se há capital ocioso.

O problema é que o índice trata todos os itens do ativo circulante como igualmente líquidos. Numa Selic a 10% ao ano, isso é uma simplificação perigosa.

CDI e a distorção das aplicações financeiras

Tesourarias brasileiras mantêm saldos significativos em CDBs, LCIs e fundos DI para rentabilizar caixa excedente. Esses ativos aparecem no circulante — muitas vezes com liquidez D+0 ou D+1 — e inflacionam o numerador do índice de liquidez corrente.

Um CFO de empresa de tecnologia em Curitiba mostrou à redação sua planilha de liquidez ajustada: o índice corrente oficial era 2,3. Descontando aplicações com carência superior a 30 dias e valores comprometidos em garantias de contratos, o índice caía para 1,4. Ainda saudável, mas em território que exigiria atenção em qualquer comitê de crédito.

Liquidez corrente mede capacidade contábil de pagamento, não velocidade de conversão em dinheiro vivo.

Com o CDI em patamar elevado, a tentação de alongar prazos de aplicação é real. O spread entre deixar dinheiro na conta corrente e aplicar em CDB de 90 dias pode representar milhões para empresas de médio porte. A tesouraria ganha na rentabilidade e perde na métrica de liquidez imediata — um trade-off que poucos relatórios trimestrais explicitam.

Quando o fornecedor encurta o prazo

O denominador do índice também se move. Em ciclos de juros altos, fornecedores — especialmente os menores, sem acesso a crédito barato — pressionam por prazos mais curtos. O passivo circulante cresce não porque a empresa comprou mais, mas porque as obrigações se concentraram em janelas menores.

Uma rede de farmácias no Nordeste relatou que o prazo médio de fornecedores caiu de 42 para 31 dias entre janeiro e maio de 2026. O índice de liquidez corrente permaneceu estável em 1,6 — mas o perfil de vencimentos mudou radicalmente. Pagamentos que antes se espalhavam ao longo de seis semanas agora se concentravam em três.

A tesouraria respondeu com duas medidas: negociação seletiva de prazos com os 15 maiores fornecedores (representando 70% do volume) e migração de parte das aplicações financeiras para liquidez diária, aceitando menor rentabilidade em troca de previsibilidade.

Os limites do indicador — e o que usar além dele

O índice de liquidez corrente continua útil como triagem rápida. Não deve ser usado isoladamente. Três complementos fazem diferença na prática:

  • Liquidez seca — exclui estoques do ativo circulante. Relevante para varejo e indústria.
  • Liquidez imediata — considera apenas caixa e equivalentes. Mostra a capacidade de pagamento sem vender estoque ou antecipar recebíveis.
  • Curva de caixa projetada — mostra quando o dinheiro entra e sai, independentemente da classificação contábil.

Bancos ainda pedem o índice corrente porque é padronizado e comparável. Tesoureiros inteligentes calculam os três indicadores e apresentam ao conselho a curva de caixa semanal como documento principal. O índice vira nota de rodapé — que é provavelmente o lugar que sempre deveria ter ocupado.